Prometheus

Finalmente, depois de quinze anos desde o último Alien (1997) da franquia, Ridley Scott volta à mesma para realizar um prequel. Ao menos era o anunciado quando começaram a surgir informações sobre Prometheus (2012). Porém, quando assistimos ao filme percebemos que a intenção do diretor era contar uma outra história no mesmo universo. Nesse fato reside todo o complexo pesar desta crítica: deixar claro do que se tratou Prometheus teria facilitado a vida de muitos …

Mapa estelar

Imagem do mapa estelar na caverna

 

Aqui no Infinidade costumamos lançar nossas críticas o mais próximas da estréia possível, justamente para que aqueles nossos leitores que curtem uma esmiuçada em um filme antes de vê-lo, possam fazer isso aqui, conosco. Mas, assim como o foi para o cinema, também pra gente este filme acabou virando um caso especial. Entramos em profundas elocubrações sobre os significados herméticos, as cabalas visuais, e toda a feitiçaria literária por trás do roteiro, e especialmente discutimos sem parar sobre os furos do roteiro! Lemos e relemos outras críticas, fóruns e textos diversos sobre o filme, na esperança de captar o fêladamãe do je ne sais quoi que ficou faltando quando saímos do cinema, apesar da opulência da fita.

Então, primeiro, vamos ao clássico spoiler, para os (poucos, cremos) que ainda não viram, ou mesmo para aqueles afim de um spoiler minimamente bem-humorado:

[ Spoiler Alert ]

Um "engenheiro"

Em 2089, uma equipe de cientistas descobre uma série de pinturas ancestrais, em diversos lugares e em diversas culturas antigas da Terra, que representam uma espécie de mapa estelar. Após descobrirem para onde, muito provavelmente, o mapa apontava, conseguiram o patrocínio do bilionário Peter Weyland, o CEO de Weyland Corporation (mais vilã que os próprios Aliens em um monte de filmes da franquia), e partiram pra lá à bordo de uma nave especialmente construída pra isso, denominada Prometheus.

Essa expedição científica inédita na história teria o objetivo de encontrar, lá numa lua chamada LV-223, num sistema solar distante e alvo do tal mapa ancestral, uma raça alienígena que seria a criadora da nossa espécie (daí eles foram apelidados de Engenheiros), numa odisséia atrás de nossa origens, ou, em outras palavras, eles estavam atrás de uma resposta mais esclarecedora do que quarenta e dois para a vida, o universo e tudo o mais. Mas, claro, o buraco negro sempre é mais embaixo, e Peter Weyland não desembolsou uma ridículamente grande montanha de dinheiro apenas pelo espírito científico. O cara, já em avançado estado de Data de Nascimento Antiga, está à beira da morte por abotoamento natural do paletó de madeira, e decide ir aos nossos/dele criadores, os Engenheiros, atrás da possibilidade de que estes lhe deem o segredo da imortalidade humana.

Chegando ao LV-223, os humanos da Prometheus descobrem que seus criadores não estiveram muito satisfeitos com suas criaturas (como culpá-los, não é?) e pretendiam exterminar seus “filhos” enviando naves carregadas de uma arma mutagênica capaz de criar monstruosidades para exterminar suas “crias” (já na primeira cena do filme vemos como os Engenheiros são chegados num drama ritualístico, e pouco afeitos a soluções práticas). Mas antes que a tripulação humana, vinda da Terra, possa compreender tudo e fazer algo, ela é sutilmente sabotada por uma de suas próprias criações, o andróide David, que primeiro consegue acesso ao líquido mutagênico, depois usa os humanos como cobaias do negócio, em seguida descobre que um dos Engenheiros está vivo, hibernando, e por fim cumpre sua programação final e desperta Peter Weyland, também em sono criogênico, escondido na Prometheus, e o leva para conversar com o Engenheiro. Mas o alienígena, munido de um indefensável DNA humano, parte pra agressão, e arranca a cabeça de David, arrebentando Weyland e quem mais estiver pela frente.

Depois o último Engenheiro começa a ativar sua própria nave (igual aquela nave onde encontramos um Space Jockey pela primeira vez, no primeiro filme Alien, e que agora descobrimos ser um Engenheiro de capacete) para vir acabar com a Terra! No entanto, uma das cobaias de David, a cientista Elizabeth Shaw, após arrancar do próprio ventre um feto alienígena, escapa e avisa ao comandante Janek, da Prometheus, o que está acontecendo, e ele explode a nave terrestre contra a alienígena, impedindo a decolagem desta última. Caçada pelo Engenheiro, que sobreviveu ao choque das naves, Elizabeth acaba recebendo ajuda do seu próprio “filho”, pois a coisa que cresceu no útero dela toma grandes proporções e ataca o engenheiro, incubando nele um protoalien, algo que um dia será o alienígena que todos amamos temer. Em seguida Shaw consegue fugir, levando a cabeça ainda ativa de David e o corpo do andróide, que afirma saber operar as outras naves alienígenas que estavam espalhadas em LV-223. Elizabeth então toma sua decisão épica. Ela não vai voltar para Terra, mas sim vai viajar pelo Universo a procura do mundo original dos Engenheiros, para descobrir porque os criadores da espécie Humana estavam com tanta gana de nos exterminar!

Tem um monte de firulas distribuídas pelo filme de Mister Scott, mas em essência, é isso.

Arte da produção

Quando saímos do cinema, as adoráveis moças que nos davam o prazer da companhia delas já se retorciam por conta de nós (nerds malditos, nerds malditos) não falarmos de outra coisa, se não de perguntas e mais perguntas sobre Prometheus. Elas não entendem!

É agoniante pensar, por exemplo, em como uma megacorporação como a Weyland gasta bilhões com um revolucionário projeto de uma nave interestelar, e algum incompetente do RH da Companhia contrata a tripulação de um traineira de pesca para levar a Prometheus aos nossos criadores!

Como pode isso?!? Nada contra tais profissionais pesqueiros, muito pelo contrário, toda glória aos bravos que buscam no mar o alimento de tantas bocas, mas será que o comandante de um navio de pesca gostaria que eu, um semi-escritor e meio webdesigner, Wagner, pilote (ou seja como se chama “dirigir” pra ele) o navio e me responsabilize pela vida de todos? Esta bem, ok, ok, em expedições científicas que vemos no Discovery Channel não é incomum vermos barbudos, meio doidões, possivelmente chegados na erva, cheios de personalidade contestatória, entre os cientistas e técnicos.

Mas, Grande Galáxia! O Neil Armstrong era assim? Quando a empresa em que você trabalha te põe o mais ambicioso e caro projeto deles nas tuas mãos, ela permite que você seja assim? E se esse projeto é literalmente uma questão de vida ou morte para o CEO da sua empresa, ele contrata justo você, um apreciador dos efeitos medicinais de certas plantas para tocar a parada? Esse é, talvez, o problema mais gritante do filme. E a única resposta que nos ocorreu foi a repetitiva e sombria “é a bilheteria”, a massa se acostumou a personagens caricaturais e infantilizados, então nós (diretor, produtores, contra-regras, senhora adorável do cafezinho, etc) sabemos que nem no universo mais imbecil uma nave daquelas seria tripulada por néscios profissionais (no que tange a tripular uma nave de pesquisa de alto nível, vale lembrar) feito aqueles, mas fazer o quê? Educar a população mundial forçando-a a não ter escolha (por falta de opção) e se sentir perdendo status social se não buscar elevar seu grau de sensibilidade e de raciocínio, esforçando-se a compreender produtos de mais alta qualidade? Heim? Oh, Of course not. Vamos só lucrar mesmo, que tá mais que bão, dando o pão e circo que eles querem!

Charlize Theron

Poderíamos desfilar outros tantos furos no filme, tais como geólogos se perdendo dentro de cavernas (mapeada digitalmente, num mapa que não é possível que não caiba num simples tablet deles); ou a equipe tirando o capacete num ambiente hostil naquela manjada cena do “eu sei que isso aqui pode me matar, mas, tsc, dane-se o projeto, viva a aventura!”; ou ainda cientistas quase gritando feito menininhas diante de velhos cadáveres, mas que encaram numa boa e vão logo metendo a mão numa forma de vida alienígena que lembra uma serpente prestes a atacar; e também um CEO feito Peter Weyland, a clássica raposa velha, contumaz político e com aquela pitada de quase-pisicopata que todo bom CEO daquele porte deveria ter, e que ainda assim acha que pode tirar a imortalidade dos seus/nossos criadores simplesmente indo lá e pedindo cara a cara, sem oferecer em escambo nada mais que seu melhor sorriso de vovô.

E a filha do cara? Alta executiva e humana a procura da aprovação paterna (algo que, convenhamos, permeia todo o filme), uma interessante personagem, forte e razoavelmente densa (além de Miss Theron ser bonita de comover, cara! Rs!) , desperdiçada só pra afirmar o velho ditado de que em avião caindo e elevador despencando não é possível encontrar um único ateu. Parafraseando a filosofia existencialista dos meus sobrinhos adolescentes e atualmente muito em voga: brabo, véi.

Se repete, então, a resposta que encontramos acima, para a maioria desses furos permanece a funesta conclusão: é assim por causa da bilheteria. Daí temos mais um filme que faz você pensar que, para que a sétima arte continue viva, ao menos no grande circuito, muito de sacrifício precisa ser feito nos roteiros para que se adaptem ao gosto popular “pastelão”. Para fãs de Sci-Fi um pouquinho mais hard, no entanto, Prometheus foi uma bela decepção, pois o enredo contém características interessantíssimas de serem exploradas, como a cultura dos Engenheiros, que é uma sociedade ao mesmo tempo humana e alienígena, o que ficou para uma eventual continuação, ou a relação desta cultura com uma ritualística que envolve engenharia genética e mitologia religiosa, e ainda o imenso salto dado pela humanidade ao construir sua primeira nave interestelar com um objetivo arqueológico e antropológico tão fascinante.

Sem dúvida, promessas existiram e ainda existem no filme, mas dada a execução de massa empregada nele, a fita acaba se autosabotando aos olhos mais exigentes. Porém, para a grande maioria parece que é um filme divertido e que vale o ingresso. Fica a seu critério. Talvez depois do que leu aqui, e sem grandes expectativas, você curta mais que nós. Se bem que duvido que em companhias tão encantadoras quanto as nossas! ;-)

Comentários

  1. Em relação se seria um prequel ou não, Ridley Scott mesmo afirmou que não seria uma prequência e sim uma história que no “universo alien”, tem até isso no IMDb e eu, particularmente, já fui ao cinema sabendo disto, aliás, muito antes já sabia disto. Talvez este fato tenha ajudado um pouco.

    Acredito que Prometheus foi uma produção bastante ambiciosa, mas não conseguiu realmente atingir as expectativas de quem esperava muito do filme como a sua, mesmo assim, no final das contas acredito que seja um filme razoável pra bom. Não chega a ser ruim e nem espetacular, fica sim na média e vale o ingresso sem sombra de dúvidas.

    • Pois é, Mestre Marcio, eu, pelo menos, vejo exatamente como vc, um bom filme, mas muito mais pelo potencial dele pelo que vi na tela. Fico com essa sensação entalada na goela de que o tal papo de venham todos ver um Filme Alien (e a galera vai em massa) _ mas nos damos o direito de total liberdade poética, pois estamos fazendo um filme “no universo” _ fica com aquele gostinho de “marquetingue em primeiro lugar”, rs, o que se comprova pelas “soluções” marqueteiras impostas ao produto final. Mas tudo bem, feito seriado de TV que leva tempo pra fixar sua mensagem, filmes pensados para serem “logias”, ou seja, focados em continuações (desejo expresso por Mister Scott em entrevistas), às vezes começam mornos ou “ofegantes” mesmo. Apesar dos pesares, nosso “cérebro” tá assistindo! Torçamos, pois, que Ridley e Aliens merecem muito sim! Abraço.

  2. Claudio Augusto dos Anjos
    em 26/05/2013 11:33

    Pois é…
    Não assisti no cinema.
    Mas assisti a estréia no Telecine Premium, isso deve contar alguma coisa, creio eu.
    Achei o filme baca, e putz, nem me atentei que se tratava do mesmo universo, não li muito sobre o filme. Portanto pra mim, desligado, foi legal ver o tatatataravô do Alien da Sigouney.
    Agora, atento aos detalhes, eu achei o capacete do Engenheiros a “cara”, do nosso maior mamífero, a “Anta”, que tem um pequetito cérebro. Talvez por isso eles tenham criado os humanos…
    A Nave quando cai e fica em de lado apoiada ao solo, por alguns momentos me lembra a letra ômega. Talvez uma piada interna sobre o Fim!
    Detalhes e firulas.
    Cá pra nós, poderia haver uma versão do diretor, mais coerente e digestiva.

    Um abraço e parabéns pelo ótimo site.

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