O Candidato Honesto (2014)

Sem ser inovador, pelo contrário, é cópia, e mesmo te fazendo rir aos borbotões, este é um filme muito, muito sério.

Mesmo te fazendo rir aos borbotões, este é um filme muito, muito sério

Inegavelmente, “O Candidato Honesto”, de Roberto Santucci, com Leandro Hassum, é, conceitualmente, cópia (mesmo que coerente e bem feita) do filme de Jim Carrey “O Mentiroso”, onde este ator é um advogado que, por força da conspiração de algum poder universal somado ao desejo sincero de seu filho, passa a não poder mentir mais, o que resulta em momentos hilários onde o advogado, calhorda e cascateiro por opção, tem que ser cem por cento honesto! E é exatamente o que acontece com o nosso político brasileiro de natureza, obviamente, pérfida. Ao encarar a avó no leito de morte, recebe dela uns safanões e a maldição de que não conseguirá mais mentir, que será honesto, sempre! Político, brasileiro e honesto, tudo na mesma frase, só em uma comédia, mesmo!

Mas, antes que atires a primeira pedra, lembra-te, copiar é ferramenta já gasta do próprio arsenal gringo. Estrategicamente Hollywood faz isso o tempo todo, copia o que já tem público consumidor definido, para tentar pegar carona no sucesso já feito, reeditando enredos, ou mesmo fazendo versões próprias de filmes estrangeiros que já alcançaram público, é prática comum no cinema dos EUA. A produção braisleira só toma emprestado este recurso, que aqui pode-se dizer até necessário, quando é bem empregado (como creio que foi o caso), visto que no nosso país os profissionais de criação ou são engolidos pela área de propaganda, ou precisam viver de incentivos artificiais do governo, enquanto o verdadeiro (e rico) mercado para tais autores é devorado pelos hegêmonas estrangeiros e seus serviçais nativos, que cerceiam criadores e encurralam consumidores. Diante desta realidade, convenhamos, até que vale usar a arma do oponente para se manter no ringue.

Copiar é ferramenta já gasta do próprio arsenal gringo

Discutida a parte do “eu já vi isto antes”, sigamos em frente. No filme nacional, tal qual no gringo, o final é previsível e leve, utópico até. O discurso final do candidato honesto é até uma mensagem politicamente correta e importante, na suposição de que o espectador não consegue alcançar maior profundidade (suposição que se partilha, também, com Hollywood, basta ver quantos cérebros entusiasmados o Infinidade tem distribuído. Raros). Mas o ponto forte do filme vai do seu primeiro até seu segundo ato, cujas cenas formam um resumo, ou melhor, um exemplo que, infelizmente, deveria ser caricato, mas que é uma imagem fiel e até muito séria, apesar das boas piadas, de todos os nossos políticos e demais servidores públicos (eu fui um funcionário público, e posso dizer com experiência prática que gente de fato empenhada em trabalhar, e cuidar bem do que é de todos nós, é tão pouca que eu nem preciso contabilizar estes raros heróis aqui, mas do tempo em que trabalhei ao lado de alguns deles, sou amigo sincero de todos, e os admiro imensamente. Político que mereça minha admiração, não conheço nenhum).

Falar a verdade naquele “Circo!” em Brasília é de morrer de rir!

No entanto, como dizia o vovô nos seus dias de pá virada, “o buraco é mais embaixo”, e percebemos tanto aqui na realidade quanto lá nas entrelinhas do filme que o problema não está na pessoa do político, mas no próprio sistema. As leis que regem o sistema político brasileiro agem como precário “alambique”, construído com a mais absoluta má intenção, coisa de meliante para privilegiar bandido, e daí os nossos políticos são o “destilar” de tudo que há de pior em nós: oportunistas, preguiçosos, egoístas, cruéis além de qualquer limite humano, indiferentes, estúpidos, corruptos desde as vísceras à superfície da pele. E quando um deles, bem no meio do que ele mesmo bem apelidou de “Circo!”, e que nós chamamos genericamente de “aquele antro de corruptos em Brasília”, se vê obrigado a falar a verdade, é de morrer de rir! Afinal, como bem capta “O Candidato Honesto”, político no Brasil só se faz servir mesmo para roubar e para ser alvo de chacota! E rir da auto enlameada reputação de deputados, senadores, presidentes, presidenciáveis, e curriolas afins, é o que você mais vai fazer neste filme. Então, confira e escangalhe-se de rir, se achar que deve, vai ser ótimo, mas não deixe passar em branco a essência extremamente séria do filme: o teu governo, que deveria servi-lo com dedicação e profissionalismo, é um espetáculo mambembe tosco e risível, onde palhaços engravatados, saltitando de mansão em mansão, de prostíbulo em prostíbulo, de mamata em mamata, e de voto em voto, destroem o futuro de todos nós!

Por: Wagner RMS.

Assista ao trailer: http://youtu.be/bndlriD5Gek

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