O Artista (The Artist, 2011)

Fui assistir ao filme “O Artista” sem muita expectativa. Confesso que tive dificuldade de imaginar um bom filme que fosse exibido completamente em preto e branco e mudo. Ainda mais uma produção franco-belga. Nada contra os franceses, eu mesmo estudei em colégio francês, mas foram poucos filmes desta indústria que me entusiasmaram nos meus anos de espectador. Como escrevo sobre filmes, fui praticamente obrigado a assisti-lo. Seria inaceitável não ter uma opinião exata sobre o filme que ganhou o prêmio de melhor filme no Oscar 2012.

Em geral, assistimos filmes porque estamos interessados em boas histórias. Histórias intrigantes, tristes, alegres, tensas, sofridas, não importa. Estamos todos procurando emoções. E hoje em dia, as técnicas são tantas que fica muito difícil a gente pensar em como um filme mudo traria estas emoções até nós. Mas é possível sim. Foi com uma sensibilidade assustadora que Michel Hazanavicius soube contar a sua história. Um filme que mostra a decadência do cinema mudo contrapondo com o surgimento do cinema falado. Com este pano de fundo, a ousadia de apresentar um filme mudo e em preto e branco nos dias de hoje era totalmente adequada. Uma espécie de homenagem ao cinema, aos atores do passado, como Rodolfo Valentino que morreu cedo, aos 31 anos, mas que foi um ícone desta época. Talvez a escolha do próprio nome do protagonista, George Valentin (Jean Dujardin) tenha a ver com esta proposta de homenagem.

Dujardin recebendo o Oscar 2012

O filme basicamente conta a história do declínio de um ator famoso chamado George Valentin, que não acreditou no crescimento de uma nova indústria de filmes falados e o nascimento de uma estrela, Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma esfuziante e brejeira dançarina lançada exatamente no surgimento desta nova época do cinema. Com muitas cenas engraçadas e espirituosas, o filme passa naturalmente pela comédia e pelo romance. Eu arrisco dizer que a história do filme não seria mais bem contada se fosse de qualquer outra forma. A ausência de cor e de som faz parte da atmosfera do filme, pois é complementar a história que está sendo contada. Algumas vezes durante o filme o diretor “brinca” com a questão da sonoridade. No sonho de George, por exemplo, quando ele escuta a sonoplastia mas não escuta os diálogos. Outra cena deste tipo ocorre quando ele presta atenção nos lábios do guarda que o amedronta com a simples percepção da sua fala. Foi apenas na última cena que ouvimos do artista principal alguma frase. E não poderia ter sido tão perfeita. “Com muito prazer”. E foi com muito prazer que assisti a este filme.

Tudo o que foi mostrado no filme sobre a decadência do cinema mudo aconteceu e realmente são inúmeros os casos de carreiras destruídas pela chegada do cinema sonoro. Antes os atores não precisavam decorar textos, não precisavam ter formação teatral e muitos eram estrangeiros com sotaque bem acentuado. Foram poucos artistas que conseguiram virar a página e colher novos frutos desta nova indústria.

A premiação do Oscar deste ano deu a este filme um conjunto de prêmios bem coerente. Seria totalmente improvável o melhor filme não receber o prêmio de melhor ator e se tratando de uma obra muda, não ter a melhor trilha sonora. As cenas eram minuciosamente tratadas, adequando as expressões fisionômicas dos artistas com as músicas que eram bem apresentadas a cada situação. O resultado foi perfeito. Melhor filme, ator e trilha sonora.

Vale a pena ressaltar que poucas vezes eu estive em uma sala de projeção em que o silêncio da plateia era quase absoluto. O nível de concentração era tanto que eu podia ouvir até a respiração do cavalheiro a frente da minha fileira. A meu ver, será um sucesso de público aqui no Brasil.

Vaudeville argentino

Foram várias cenas engraçadas e bem feitas onde gostaria de destacar, além de Dujardin, a performance do ator John Goodman e da atriz Bérénice Bejo. Particularmente gostei muito da cena em que Peppy se abraça com um casaco de George que ganha vida através de uma mão que a acaricia. Uma cena que marcaria pela originalidade, pensei eu. Infelizmente pesquisei um pouco e vi que este número já fazia parte de um Vaudeville argentino, um gênero teatral de variedade que era comum entre 1880 e 1930.

Tudo neste filme foi bem feito. Gostei muito dos atores e principalmente da trilha sonora, que me fez lembrar a época em que as músicas orquestradas acompanhavam os desenhos animados do Tom e Jerry. Eu realmente adorei o filme e não tenho nenhuma crítica negativa a fazer. Saio apenas com uma curiosidade que logo vou poder sanar. Como Jean Dujardin se comportará com um personagem falante e que não explore exclusivamente suas caricatas expressões faciais? Vamos esperar para ver. Por enquanto não tem como negar. Merecedor do Oscar de melhor ator, com louvor.

Ficha técnica:

Período de Filmagem: 4 de outubro de 2010 à 19 de novembro de 2010
Período de Produção: Julho de 2010 à Maio de 2011
Orçamento: USD 15 Milhões
LocaçõesCalifórnia, USA
Pais de Origem: França e Bélgica 
ProdutorThomas Langmann/Emmanuel Montamat
DiretorMichel Hazanavicius
Tempo de projeção: 100 minutos
Classificação etária brasileiraNão recomendado para menores de 12 anos por mostrar cenas que envolvem os seguintes assuntos: drogas lícitas e violência
 
Classificação Infinidade: Cérebro ligadão
 

Comentários

  1. Fabio Farzat
    em 07/03/2012 10:41

    Confesso que eu estava com um senhor receio de assistir esse antes de ler a sua crítica Flávio. Agora, com certeza, vou assistir! Um filme PB e mudo realmente meteu medo! Rs.

    Excelente texto.

  2. Wagner Ribeiro
    em 04/04/2012 01:28

    Flavio, assisti. Comovente, do jeito que fez com Fábio, comigo também teu texto atiçou a curiosidade de ver o filme, e sem duvida, vc se vê transportados para um “modo” de ser espectador que já quase desapareceu: assisitir compenetrada e silenciosamente, e nem por isso com menos empolgação. Uma jornada quase arqueologica e certamente repleta de emoção e aventura aos priomordios, as raízes do nosso querido cinema! Cérebro ligadao, sem sombra de duvida! Abraço.

  3. Eu também de início tinha esse “estranhamento”, digamos assim, em relação ao filme mas resolvi “encarar” pelos mesmos motivos que você e não me arrependi.

    O Oscar realmente premiou muito bem este ano, e o “Artista” é mesmo excelente

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