Melancolia (Melancholia, 2011)

Pensei muito se ia escrever sobre este filme aqui, pois é um filme que incomoda e perturba. Não é um filme para distrair. Ele é denso e provoca muitas reações divergentes entre os expectadores.

Então, ainda há chance de você escapar para ler algo mais leve e divertido. Temos muitas opções por aqui no Blog.

Bem, se você se arrisca nesta leitura é porque está curioso ou realmente quer se aprofundar nas questões delicadas que envolvem este filme. Uma dica para os curiosos é que não vejam este filme sem entender um pouco mais sobre a proposta que está por traz dele, sob o risco de desligarem o DVD antes mesmo dos 15 primeiros minutos.

Vou logo adiantando que gostei do filme, mas sei que isso deve ter acontecido porque me preparei para vê-lo.

Lars Von Trier

Não tem como analisar este filme sem esbarrar na personalidade do diretor e roteirista dinamarquês Lars Von Trier. Aquele mesmo que foi banido do festival de Cannes por dar uma entrevista desastrosa onde declarou: “Eu entendo Hitler. Claro que ele fez algumas coisas erradas. Mas eu o compreendo.”.

Além de polêmico, muitas vezes já manifestou publicamente que sofre de depressão e que não acredita em nenhuma religião ou crença. No fundo, o filme dramatiza algumas dessas suas características. Com sarcasmo, durante o lançamento do filme, Lars ainda se declara nazista, provocando um pouco mais a polêmica até sobre a escolha da trilha sonora do compositor alemão Richard Wagner.

Lars Von Trier busca um cinema mais realista e menos comercial. Encabeçou um movimento cinematográfico internacional lançado a partir de um manifesto publicado em 13 de março de 1995, intitulado Dogma 95. Junto com Thomas Vinterberg, formularam as regras que seriam conhecidas como “voto de castidade”:

1) As filmagens devem ser feitas em locações. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).

2) O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).

3) A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).

4) O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).

5) São proibidos os truques fotográficos e filtros.

6) O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer).

7) São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual).

8) São inaceitáveis os filmes de gênero.

9) O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.

10) O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Em fevereiro de 2005, Lars ainda acrescentou mais 4 novas regras:

1) A gravação deve ser feita em formato digital;

2) As filmagens devem ocorrer na Escócia;

3) As filmagens não podem ultrapassar o prazo de 6 semanas;

4) O custo total do filme não pode ultrapassar a quantia de um milhão de libras esterlinas.

Em Melancolia percebemos bem a influência do movimento. É interessante destacar que, mesmo depois de tantos anos do Dogma 95, Lars Von Trier ainda recorre a estes aspectos. Melancolia é todo com câmera na mão e filmado em locações. Vemos poucas produções de arte e a luz é quase toda ambiente, ficando escura em muitos momentos. O som também é raramente extra-ambiente. Apenas a trilha de Tristão Isolda se repete em momentos marcantes do filme. Os demais sons vêm todos do ambiente filmado. Para tratar de seu tema de ficção científica, Von Trier só teve que quebrar a lógica de cinema real para inserir alguns efeitos visuais totalmente necessários.

O Planeta Melancolia

Melancolia é um filme de ficção científica, onde um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra, o que resultaria em sua destruição por completo. Neste contexto, passamos a observar o comportamento humano, especificamente sob a ótica do fim da existência.

Melancolia é um filme de ficção científica sim, que num cenário palaciano, retrata duas irmãs (uma noiva, Justine (Kirsten Dunst) e outra já mãe, Claire (Charlotte Gainsbourg), com o seu marido John (Kiefer Sutherland), nas suas relações familiares e interpessoais. Apesar de muitos classificarem o filme como “Disaster Movie”, na minha concepção é muito mais que isso. Lars Von Trier não está preocupado em dar ênfase no fato da catástrofe, na esperança ou no risco do acontecimento, já que, de acordo com o começo do filme, é tudo inevitável. Ele está à procura de entender como cada um se portaria diante do fim. Não o mundo, mas apenas essas quatro pessoas. O cineasta está em busca da pessoa, da unidade e do ser humano como único em uma situação que ele acaba não tendo controle.

Toda a primeira parte de Melancolia, intitulada Justine, se resume à festa de casamento da protagonista. Em um tom realista, Lars Von Trier percorre a festa desnudando seus personagens. Aqui, apenas alguns indícios do planeta que se aproxima, o foco é Justine e seus problemas pessoais. A relação doentia entre Justine e sua mãe, vivida por Charlotte Rampling e a veneração pelo pai, vivido por John Hurt. Isso sem falar no chefe inconveniente e o estagiário em busca de um slogan em plena festa de casamento.

A segunda parte possui mais densidade emocional. Aqui estamos cercados apenas pela família a espera do impacto do planeta, ou simples passagem. Interessante perceber a diferença das personalidades das duas irmãs, sempre se opondo. No início, Justine era a sonhadora, Claire era a prática. Justine foi se tornando a complicada, Claire a protetora. À medida que Melancolia se aproxima, Justine vai se acalmando e Claire se desesperando. A intensidade da angústia, a espera, a sensação de estar preso a um local sem saída, nos envolve.

Lars Von Trier coloca diversos símbolos escondidos em cada cena, como a própria situação da encruzilhada, ou o misterioso buraco 19, quando passou o filme inteiro nos lembrando de que só existem 18 buracos no campo de golfe. A escolha da música Tristão e Isolda para conduzir a história também é bastante simbólica, já que se trata da história de amor mais triste e antiga da humanidade.

Kirsten Dunst sob a luz do planeta

Outro ponto importante deste filme é encontrar em Melancolia uma Kirsten Dunst completamente diferente da que conhecemos até agora, não apenas mais intensa por trás de sua aparente passividade. O primeiro plano de seu rosto é particularmente forte, mas ela consente em aparecer algumas vezes sem roupa, inclusive, em uma bela cena em que se banha num riacho sob a luz do planeta Melancolia.

Kirsten Dunst mereceu o prêmio de Cannes e todos os elogios subsequentes por se entregar a uma personagem fascinantemente complexa. Todo o elenco acompanha sua dedicação construindo um vínculo e um tom incrivelmente íntimo em cada cena.

Fica a pergunta se Penélope Cruz se arrependeu, após trocar o papel por sua participação em Piratas do Caribe. Sendo ironia ou não do diretor, o fato é que, nos créditos, o primeiro nome a quem ele agradece é a atriz espanhola. Mesmo que tenha sido uma cutucada, é de se agradecer mesmo, já que o resultado em cena não poderia ser melhor.

Melancolia não é e nem tenta ser cinema de entretenimento ou puramente narrativo. O filme dialoga com a arte, a linguagem e a poesia. Sendo assim, depois desta tentativa de preparação, vá ver o filme e volte aqui para comentar, pois certamente assuntos não vão faltar.

Comentários

  1. Cara, não sou de comentar nada que vejo ou leio pela web, mesmo quando devoro vorazmente o conteúdo de determinado site (que vem ao caso), blog, canal de YouTube…
    Mas vejo que você não fez um artigo falando sobre Anticristo (2009) que particularmente a trama que praticamente me iniciou aos filmes de Lars Von Trier, depois de assistir Dançando no Escuro, mas neste eu ainda não sabia grande coisa sobre esse cara que é um dos mais únicos da atualidade.
    Podías fazer um especial, sei lá, sobre o diretor, se não for pedir muito. Ou bastaria apenas sua opnião (se o filme for do seu agrado, claro) de Anticristo.
    Obrigado desde já pelo seu glorioso trabalho.

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