J. Edgar (2011)

A biografia de um verdadeiro mal caráter. Mesmo tentando manter a imparcialidade, Clint Eastwood mostra ao mundo a personalidade de uma figura histórica, mas esquecida até mesmo pelo povo americano. Talvez isso explique um pouco o fracasso comercial deste filme que descreve a personalidade de John Edgar Hoover, funcionário público do governo, que dedicou sua vida ao que hoje conhecemos como FBI. Durante 38 anos, sobreviveu a diversos presidentes (Roosevelt, Truman, Eisenhower, Kennedy, Lyndon Johnson e Nixon) por manter dossiês secretos dos poderosos que usava para fazer chantagem no mais alto escalão, incluindo o presidente dos Estados Unidos. Casos extraconjugais, relacionamentos escusos com a máfia, tudo que fosse constrangedor e que afetaria a carreira política dos influentes no governo de forma devastadora.

Clint Estwood prefere desenvolver a narrativa em dois tempos distintos. A história é contada intercalando o passado, que vem cronologicamente sendo mostrada através de um artifício onde o protagonista conta suas memórias, e o momento atual, onde Hoover, já velho, enfrenta as dificuldades de fim de carreira.

A questão da homossexualidade de Hoover é insistentemente mostrada durante todo o filme. Isso dá para entender ao ver que o roteirista do filme é um especialista em temas gays. Dustin Lance Black foi roteirista dentre outros filmes de Milk – A Voz da Igualdade (2008), Pedro (2008) e The Journey of Jared Price (2000). Todos esses exploram esta questão.

Outro lado mostrado no filme foi a mudança significativa de rumo da organização através de suas ideias inovadoras. Um novo modo de conduta dos agentes fora implantado, a preocupação com a formação, os aspectos comportamentais, a propaganda da agência, a modernização utilizando o que hoje conhecemos como ciência forense, o uso de oportunidades para as mudanças de legislação, tudo isso foi lhe dando o “poder”. O filme consegue deixar a mensagem aparente que o FBI deve muito a ele.

Hoover e Tolson em um momento de intimidade

As cenas de intimidade emocional de Edgar com o agente Clyde Tolson (Armie Hammer) que perdurou o filme todo, permitiu que determinados segredos fossem compartilhados conosco, os expectadores. Este subterfúgio usado pelo Diretor, fez com que durante a narrativa, nas diversas vezes em que Hoover pedia conselhos ao seu companheiro o público soubesse o que passava por traz dos bastidores do poder. Isto permitiu que tivéssemos uma versão diferente dos fatos históricos.

Do ponto de vista técnico, posso dizer que concordei com o fato do filme não ter sido indicado ao Oscar. Fiquei com uma sensação ruim ao ver este filme escuro, com maquiagens muito mal feitas, talvez pela dificuldade em caracterizar atores tão jovens como Hammer,  nascido em 1986.

Judi Dench, como mãe de Edgar, não estava inspirada. As suas cenas eram as mais escuras e pouco podemos ver suas feições ao interpretar. Em alguns momentos, lembrei-me do filme O Aviador (2004), mas acho que foi por considerar Leonardo DiCaprio um ator pouco versátil que segue sempre o mesmo padrão de atuação, com exceção do papel em Os Infiltrados (2006), onde teve uma boa atuação.

J. Edgar Hoover - Diretor do FBI

Em resumo, vi um filme biográfico em cima de um personagem pouco conhecido pelo público e que não foi transformado em herói, ou algo parecido. O que foi mostrado foi um mal caráter arrogante, um ser desprezível que apesar de pregar o primor comportamental dos seus agentes, inclusive exigindo rigor nas vestimentas e coisas do gênero, ainda mantinha um caso homossexual escondido da sociedade durante quase toda a sua vida. Era capaz de mentir e forjar situações para aparecer como salvador da pátria. O filme ainda explora o absurdo da perseguição aos liberais durante os anos 60, até com acusações falsas e chantagens a gente como Martin Luther King.

Eu não achei o filme bom para recomendar, mas valeu por ter tido oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a sociedade americana da década de 60. Se vocês querem conhecer um pouco mais sobre a carreira e a personalidade deste homem vejam: http://en.wikipedia.org/wiki/J._Edgar_Hoover e arrisquem o filme.

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