Chappie (2015)

É fantasia científica, pois embora faça uso de signos do tipo “figurinhas fáceis” em filmes de sci-fi, tais como os próprios robôs, Chappie tem pouco ou nenhum embasamento científico, em suas afirmações acerca da inteligência artificial, seu desenvolvimento e probabilidades de extensão da própria consciência/vida humana. Ainda assim diverte!

A velha dica, por favor, veja o filme antes de ler o texto abaixo, ele até que não é, dos meus textos aqui no Infinidade, o que contém mais “spoilers”, mas que eles aqui também existem, existem. ;-)

Chappie, esse mané, diverte! ^_^

Tem gente traçando o óbvio paralelo com o filme Short Circuit, de 1986, onde um robô criado para ser um soldado sofre um acidente e adquire não só consciência, mas também o coração de uma criança ávida por conhecimento e repleta de doce ingenuidade, que vai atritando com a brutalidade do mundo humano, (quase) sem se deixar embrutecer por este mundo. Pois Chappie, de Neill Blomkamp,  é mesmo quase um “remake” daquele filme, que remasterizae transplanta o simpático robô de um subúrbio norte-americano para um gueto sul-africano, e acrescenta fartas doses de violência e miséria, gírias e trejeitos de gangues de periferia ao universo que existe em torno da consciência recém-nascida da máquina. E as melhores cenas do filme estão ali, quando o robô desenvolve laços familiares com um pequeno grupo de marginais que, enganando a ingênua inteligência artificial, tentam transformar Chappie em um meliante, ensinando-o a ser “boladão”, para que este possa ser usado como ferramenta para concretizar um grande assalto que vai livrar eles (a pequena gangue de humanos) de uma dívida fatal com bandido ainda pior que eles.

Pimpolho "Péla Saco", Aprendendo por Imitação.

Ou seja, se você busca uma discussão séria sobre a inteligência das máquinas, este não é exatamente o filme. Já desde a criação da “alma” consciente de Chappie há mais devaneios que realmente ciência computacional. Um jovem engenheiro (interpretado por Dev Patel) de sistemas desenvolve, em suas horas de folga, um novo software, que, contém uma consciência completa, é instalado em hardware fabricado para dar suporte a sistemas não conscientes, ou, noutras palavras, hardware “antigo”. Tudo bem, apesar da incongruência anterior, até certo ponto da trama entendemos que o robô Chappie, como todo o ser vivo sensível e autoconsciente, parece obter sua consciência do resultado abstrato único de uma configuração, também única, de recursos físicos (circuitos eletrônicos de processamento e memória). Mas logo o filme cede a uma certa mística, e volta à carga de que uma consciência complexa possa existir apenas como software, que pode ser armazenado em um pendrive (!?!).

Filme "Ex Machina", Inteligência Artificial mais séria?

Em C7i, space opera de minha autoria, construí personagens que são criaturas assim, que existem virtualmente (VRPs), mas elas “vivem” apoiadas em uma Rede (VRNet), ou em chips específicos (EpChips), cujos hardwares são preparados para dar suporte a estas consciências, e um suporte bem “parrudo”, por sinal, pois indica o uso de computação quântica como tecnologia amplamente dominada, e circuitos optoeletrônicos que fazem uso de luz, ao invés de nossos clássicos aparelhos movidos a eletricidade! Neste cenário, uma VRP pode fazer cópia de segurança de si mesma, mas nesta cópia há também dados sobre como deve ser e se comportar seu hardware de suporte. Não existindo a configuração física adequada, a cópia gravada da VRP é um monte inútil de dados.

As VRPs são Abstrações Surgidas da União de Hardware + Software.

Pode-se dizer que o filme de Neill Blomkamp toca muito sutilmente em temas fundamentais para uma “conversa séria” sobre inteligências artificiais. Há, por exemplo, a menção à teoria da tabula rasa, “em que a consciência é desprovida de qualquer conhecimento inato – tal como uma folha em branco, a ser preenchida”, e, em paralelo, o filme supõe uma ingênua bondade inerente a consciência que desperta. Mas nada disso é garantido, em se supondo máquinas inteligentes mais realistas. Há instintos inatos, no caso de organismos que evoluíram feito nós, e que talvez devam ser instalados como recursos básicos em um cérebro robô.  A autopreservação, por exemplo. Um dispendioso robô deve cuidar de si mesmo (a terceira lei de Asimov, por exemplo, leva isso em consideração).  Nossos computadores atuais, ainda não conscientes, ao serem ligados, resgatam seus “recursos básicos” de módulos de memória não voláteis (que não se apagam quando a máquina é completamente desligada) instalados neles próprios. Não seria, portanto, insensato pensar que deveria ser ali que os recursos mais básicos e “instintivos”, de uma máquina robótica pensante, deveriam estar armazenados para a primeira ativação e, eventualmente, para reativações, certo?

Nascer sabendo se defender, para a máquina faz sentido.

Se for assim, podemos supor que Chappie (que tudo indica não é um robô do tipo “asimoviano”, visto a escopeta empunhada pela unidade Escolta 22, em conflitos com humanos, antes desta se tornar Chappie) não seria atacado até se sentir acuado, sem reagir “instintivamente” e esmagar seus agressores (pois ele teria todos os “recursos básicos” de autopreservação que seu já “usado” corpo policial robô necessariamente deveriam armazenar de forma indelével).  Uma máquina que, subitamente, adquirisse consciência, não seria necessariamente um monstro de Frankenstein, que acabaria por se voltar contra seu criador, mas pode ser capaz de se defender de forma rápida e definitiva. Retratar um ser de aço que já nasce capaz de esmagar seres gelatinosos que tentem incendiá-lo, e que não é inerentemente mau, tendo que conviver com as consequências de suas ações, seria, talvez, um tempero “a mais”, muito bem-vindo em Chappie.

Chappie e a Influência Televisiva nas Crianças.

No entanto, seguir nesta linha seria exigir que o filme levasse a si mesmo e ao seu tema básico mais a sério, e Chappie não faz isso, o foco dele é divertir, e isso, sem dúvida, o personagem consegue, apesar de padecer da mesma falta crônica de ideias novas que parece assolar nossas mídias, nestes nossos dias com telas de altíssimas definição para todo lado que passam e repassam coisas rasas e mais das mesmas. Ainda assim, se você busca diversão, encontra umas boas risadas no filme, se esquecer as falhas e deixar o vínculo com o simpático Chappie florescer. A ausência de uma base científica sólida não reduz o valor das gostosas risadas que dei acompanhando o “garoto” marginalizado Chappie! E são sempre muito importantes e válidas, também, as críticas sociais embutidas em seus filmes por Neill Blomkamp.

Por Wagner RMS

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