[C7] Introdução – Estamos sozinhos

Não há vida lá fora. Estamos sozinhos.

Século XXIII. A humanidade vive uma aparente utopia tecnológica. O acesso a tecnologia e a educação é direito de todo ser humano e isso é praticado. Fome erradicada. A maioria das mazelas foram vencidas. Um exemplo disso é a cura da AIDS. O câncer também já é controlado e por mais que ainda existam doenças, curas são pesquisadas e disponibilizadas muito rapidamente.

O Primeiro volume da série, no qual está inclusa esta introdução.

A economia ainda é baseada no capitalismo. No entanto inteligentes e agressivas campanhas de publicidade e marketing, coordenadas por políticas públicas de engenharia social focadas em desvincular o ganho de status (objetivo natural do animal humano) do acumulo de riquezas para o acumulo de valor real, como criatura consciente e social, fazem com que as pessoas mais valorizadas, premiadas, reconhecidas e bem sucedidas sejam aquelas cuja postura cidadã seja a mais produtiva para a humanidade e seu meio.

Empresas ainda existem para produzir lucro. Porém, vários controles impõem restrições na forma como esse lucro pode ser aplicado. A principal destas regras legisla sobre responsabilidade social, assunto muito em voga no final do século XXI. Com esse viés, a maior parte dos investimentos ficam retidos em prol da comunidade próxima de onde o lucro é obtido. Há um controle bem apurado sobre a economia (através do uso de IAs, a maioria não são auto-conscientes, embora máquinas pensantes e conscientes já existam) que mantém esse sutil equilíbrio sob controle.

Há quem se engane que não há mais ricos ou milionários. Eles existem. E há também onde gastar ou investir essa riqueza, não mais na mera ostentação inócua, mas no usufruto do novo e do extremo da curiosidade humana. Com a evolução acelerada da tecnologia, as fronteiras do Sistema Solar foram encurtadas. Cruzeiros de férias que vão da Lua até Saturno, e mais recentemente até os limites do nosso Sistema Solar, não são incomuns. Apesar da humanidade ainda não conseguir viajar mais rápido do que a luz, viagens espaciais relativamente longas são possíveis, e em velocidades nunca alcançadas antes! Já existem até mesmo colônias lunares, em forma de cidades fechadas e blindadas, onde tudo é artificial, desde o clima até os recursos, digamos, artificialmente naturais. Tudo isso, claro, também meticulosamente controlado por IAs.

O avanço da ciência está em todo lado, ocorrendo de forma explosiva e acelerada, numa verdadeira singularidade tecnológica jamais vista, especialmente pelos três fatores apontados pelos estudiosos da época: primeiro houve o desenvolvimento das IAs. Num segundo momento o desenvolvimento de práticos e baratos Nanomontadores, máquinas do tamanho de átomos capazes de construir objetos a partir de seus átomos base. E por fim, a criação dos agora universalmente usados Reatores-Q, ou RPQ, sigla da tecnologia do Reator Ponto Quântico, que extrai energia de ponto zero de forma ilimitada da própria estrutura do universo. O Governo Mundial, centrado numa ONU renovada, criado no final do século XXI, chamou esse período de “Quinhentos anos em cinquenta”, ou, mais vulgarmente de “A Era de Ouro”.

Sendo assim, temos uma sociedade racionalizada por máquinas pensantes e humanos intelectualizados, energia abundante e limpa, a Nanotecnologia permitindo controlar a produção, plantações, ajudando na previsão e até mesmo no controle do clima, auxiliando em emergências, combate de doenças (sob a forma NanoDesmontadores Anti-vírus, capazes de encontrar, analisar e desmontar vírus específicos em organismos vivos). Praticamente tudo é controlado. Direta ou indiretamente. E com tais tecnologias é possível construir materiais jamais sonhados, aparelhos com alta sensibilidade que vasculham a imensidão com “olhos” e “ouvidos” optoeletrônicos aguçadíssimos, e com eles descobrimos que… Estamos sozinhos.

Não há dado sobre outros planetas habitados. Não existe vida fora do Sistema Solar. E mesmo nós, ainda não vencemos as barreiras naturais que nos separam do resto do universo. Não temos motores capazes de nos tirar no Sistema Solar em tempo hábil. Apesar da humanidade estar se expandindo, ainda está limitada ao Sistema Solar. Porém, esse mundo utópico esconde um segredo sombrio. Tão sombrio que, se revelado, pode acabar com a aparente tranquilidade e evolução da humanidade.

Não, nós não estamos sozinhos. Nem um pouco. Na década de 30 do século XX houve um incidente onde um pequeno grupo descobriu a verdade. Ali, antes mesmo da ONU ser criada, nasceu a Agência Internacional Código 7, responsável por controlar as informações e tecnologias referentes a vida extra-terrestre. O incidente que criou a agência trouxe consigo uma verdade: não estamos sozinhos. Nem prontos.

O principal objetivo de curto prazo da recém criada C7 (Agência Código 7) era permitir que a humanidade tivesse o tempo necessário para se preparar para o que viria. Um modus operandi foi definido onde profissionais especializados em alguma área de conhecimento ou ciência seriam “recrutados”, treinados e testados para atuarem em investigações e operações de contato com entidades alienígenas, além de diversas outras operações da C7 que envolvam suas habilidades e conhecimento. O processo de “admissão” na C7 exige a inquestionavel morte do individuo perante a sociedade civil e muitas vezes isso é levado ao extremo. A C7 tem permissão para “apagar” completamente os vestígios de um novo agente, incluindo sua família, amigos ou qualquer contato ou informação que seja considerado um risco para as operações das quais o recrutado virá a participar. A esse tipo de agente foi dada a definição de Agente-Diplomata, responsável pelo primeiro contato com os LGMs [1].

Porém, outras ações de defesa foram propostas para limitar a ação de LGMs no sistema solar.  A principal delas foi a criação de barreiras artificiais, ilustradas na Figura 1, que bloqueassem a entrada de visitantes indesejados, assim como permitissem estabilidade ao sistema solar e, consequentemente, a expansão controlada da humanidade. Após o estabelecimento do perímetro desejado, usando as infraestruturas e tecnologias disponíveis, especialmente de origem extra-terrestres, duas barreiras foram projetadas: Psi e Jericó.

Barreiras do sistema solar

Barreiras do sistema solar

A barreira Psi é definida como uma projeção psiquíca de longo alcance produzida por vários agentes psiônicos recrutados para esse fim. Essa barreira deve inibir que humanos não autorizados saiam das proximidades do Sol. Esta barreira também pode detectar atividades não humanas por toda a extensão do sistema solar e, se for o caso, eliminar tal atividade mesmo a distância. Apesar de bem eficaz, existem relatos de Inserções [2] realizadas mesmo através a barreira Psi.

Já Jericó é uma barreira com duas camadas e objetivos. A camada mais externa,  Jericó propriamente dita, é uma barreira produzida pelas mentes de pisiônicos muito especiais (que a C7 apelida de “Magos”) com o objetivo de impedir que uma força natural (como a gravidade) chamada Unodinâmica penetre em demasia no Sistema Solar. Já a mais interna de suas camadas, a Barreira de Fogo, literalmente destrói alvos que tentem sair ou entrar do Sistema Solar através de combustão atômica.

Existe uma terceira barreira que não foi fruto direto das ações da C7. É chamada de Barreira da Insanidade. Trata-se de um pulso de Onda Ressonante Caótica, ou Unodinâmica Caótica, que, em outras palavras, é capaz de enlouquecer qualquer tipo de mente inteligente que passe por ela. Mesmo entre pisiônicos, magos, e outras formas de vida não humanas, não houve relato de mente que tenha sobrevivido ilesa quando exposta ao pulso. Essa barreira é o principal motivo pelo qual a humanidade não foi rotineiramente visitada por outras raças inteligentes da galáxia. Sua origem e funcionamento ainda são um mistério até mesmo para a C7. A Agência, inclusive, por algumas décadas, acreditou que a Barreira da Insanidade fosse uma prisão para a própria humanidade, impedindo-a de expandir além do sistema solar.

As últimas décadas tem sido de relativa paz até agora, mas uma traição impensável acontece e permite a chegada de um ser inesperado que mudará tudo…

Este é o século XXIII. Esse é o cenário. E não estamos prontos.

 

Leia Código 7 e outras obras de Wagner RMS.


Glossário
:

  1. LGM: Sistema de Classificação de Alvos para Agentes-Diplomatas (AD).

Nome do Sistema: Little Green Man

Descrição: Objetiva orientar o AD em como proceder ao Contato com os Alvos Entidades Alienígenas, descrevendo de maneira objetiva a periculosidade de tal alvo para a biosfera humana e terrestre. Baseada nesta definição LGM os Operadores Táticos vão definir qual o tipo de AD e armamento/equipamento adequado para o Contato.


Tabela de classificação

LGM-0 –  Não existe perigo, objeto ou forma de vida inócua.

LGM-1 –  Perigo mínimo, contornável com precauções mínimas.

LGM-2 –  Perigo. Alvo cuja bioquímica/cultura/estrutura são danosas.

LGM-3 –  Perigo grave. Alvo predador de 1 ou mais formas terrestres.

LGM-4 –  Perigo Gravíssimo. Alvo é belicoso e intencionalmente predador.

LGM-5 –  Perigo Máximo. Alvo não classificável. Não se sabe o que esperar.

  1. Inserção: uma inserção é definida pela detecção de atividade não humana dentro do sistema solar.

Comentários

  1. Adorei a introdução (lá ele) de sua série escrita man.

    Muito bom o universo utópico que você imaginou (tem certeza que você não é um AD e não pode me levar até esse futuro aí não? hehehe).

    Bobagens a parte, gostei bastante do início e da introdução e, sem dúvidas irei acompanhar sim.

    Pense com carinho em transformar, no final, tudo isso num livro, ou numa série de livros. Tem muito futuro. Aposto que já pensou nisto…

  2. Fabio Farzat
    em 31/05/2012 03:28

    Valeu Márcio,

    na verdade já temos sim tudo registrado em formato de livro mesmo. Porém, vamos liberar aberto.

    Eu me divertia muito, muito mesmo jogando. Espero que pelo menos você consiga se divertir metade lendo :)

  3. Muito bom me reintegrar de alguma forma no universo “WR”. É uma forma, mesmo que distante, de matar as saudades do RPG e dos amigos mais antigos. Com toda certeza irei acompanhar esta série e divulgar.
    Sem sombras de dúvidas que os textos do Wagner são indiscutivelmente bem elaborados, cheio de detalhes e com uma visão inteligente do futuro.
    Abraços aos amigos Wagner Ribeiro e Fábio Farzat e desejo muito sucesso. Parabéns!

  4. Valeu, Sérgio! Muito obrigado pelos elogios e pela força! Vou me esforçar para merecer. Ah, se puder não deixe de postar comentários também lá na página do projeto [http://codigo7.infinidade.com.br], repare que no rodapé dos episódios tem um “Opiniões?”, clique nele, e deixe suas críticas e impressões, por favor. Abração e sucesso!!!

  5. Agora entendi o porquê do Mergulhão ter ficado louco!

    • Mestre Victor, valeu por comentar! Ah, sim, uma leitura dessa ótima introdução escrita pelo jogador que interpreta Guilherme Borges no RPG original, o sagaz Fabio Farzat, é essencial para compreensão profunda da Série! Fique atento a tudo que ele escrever sobre, pois ele é profundo conhecedor deste Universo. Não só isso, pois todos os jogadores originais ajudaram direta ou indiretamente com a construção do próprio C7! Abração!

  6. Claudio Augusto dos Anjos
    em 16/06/2012 04:26

    Curioso, 1930, o ano do contato, a década do início da Segunda Guerra, e do fiasco da Liga das Nações Unidas. A Liga precedeu a famosa ONU, mas dela não fazia parte o então não tão poderoso Estados Unidos das Américas.
    Conspiração, A ONU é fundada em 1945 e a LNU tem sua última reunião em 1946.
    E mudam de dono as linhas do teatro mundial de marionetes.
    Mais conspiração.
    Texto bem escrito Fábio, parabéns.
    Código7-Infinidade, não promete ser uma boa opção de entretenimento…

    É!

    Simples assim.

    • Fabio Farzat
      em 19/06/2012 05:13

      Valeu Claudio!

    • Já falei lá na fanpage do C7 Infinidade no Facebook, e repito aqui: Meeeestreee Falandoooo! Claudio Augusto não é só um dos contadores de histórias mais originais e ousados que conheço, é também um cara inteligentíssimo em todo e qualquer assunto ao qual ele queira se dedicar. Num breve panorama da década de 30, onde a Agência se originou ele não apenas trás a tona mais mistérios, como suscita mais e mais fascinantes históriar paralelas! Genial, My Master. Obrigado e um Grande Abraço!

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