Aurora HQ

Ilustrações Grandiosas

Ilustrações Grandiosas

Às vezes sentimos cada coisa estranha, não é? Quando leio quadrinhos hoje, tem hora que sinto uma saudade danada de quando era pequeno e lia bem devagar, com a dificuldade natural de quem ainda está se iniciando na arte de receber histórias (sim, há arte tanto em contá-las quando em ouvi-las, acredito). Demorar mais para ler era bom daquele jeito que só às criança compete achar bom. Ler uma mesma revista em dois ou três dias, às vezes em semanas, prazer semelhante a você, ainda estudante, enfiar na boca sorridente o seu bolo predileto, pedacinho por pedacinho, e saborear cada mastigada sem precisar consultar uma única vez o relógio, naquela tentativa vã de adiar com os olhos o fim da hora do almoço no trabalho.

Hoje os gibis viraram HQs ou graphic novels, algumas edições volumosas como livros. Algumas literárias, feito livros. E ainda assim são lidas em poucos e escorregadios pares de horas. Aurora, graphic novel de Felipe Folgosi, mesmo com suas ilustrações muitas vezes deslumbrantes, que absorvem a atenção, foi consumida assim, rápido demais. Comecei curtindo a referência atualizada ao buraco negro cientificamente correto, igual ao exibido no filme Interestelar, que já aparece no terceiro quadro da obra, e segui jornada com Rafael, cara comum exposto a um fenômeno que, o enredo indica, está relacionado com saltos evolutivos na história da vida sobre a Terra.

O Evento Deveria Mudar Tudo

O Evento Deveria Mudar Tudo

Bom conceito, mostra que Felipe fez mesmo bastante pesquisa, pois existem algumas teorias controversas que, ali daquele canto nebuloso entre ciência e mito, sugerem energias vindas do coração de nossa galáxia como destruidoras, ou mesmo indiretamente impulsionadoras, da evolução em nosso planeta. Nesta zona crepuscular nós, autores, costumamos pescar gordas ideias para nossas tramas, e Aurora lançou rede por lá.

Existem falhas, que não desmerecem a obra, mas, aos bons criadores, servem de alavanca para próximos e ainda melhores projetos. O conceito de uma intensa radiação capaz de atravessar os abismos interestelares e provocar mudanças evolutivas excepcionais na biologia terrestre deveria fazer isso, causar mutações globais, jamais focalizadamente em uma pessoa. Claro, contextualmente e literariamente a desculpa para isso poderia ser construída, mostrando-se que muitas pessoas foram atingidas, mas Rafael teria as condições de sobreviver e adquirir os dons resultantes do evento. Mas essa condição teria que ser prévia, mesmo que contada depois. Não foi, e forçou a história para o caminho óbvio. O herói recebe dons divinos, e salva os outros de um vilão um tanto tolo, daquele velho estilo rolo compressor, que mata para calar gente que, morta, atrairia mais atenção para o fato que se pretende esconder.

Nenhuma surpresa na trama, nenhuma inovação, nenhum olhar diferente sobre a jornada deste herói, de seus antagonistas, do evento que deveria mudar tudo. E diálogos precisam ser repensados e melhorados, pois os discursos dos cientistas estão demasiado didáticos e antinaturais. O massa de informação que se pretendeu passar com aquelas conversar, precisaria estar embutido na trama, diluída nos eventos, construída e passada na ação. Precisava ser mostrada, não contada.

Ainda assim comprar e apostar em Aurora valeu muito a pena. Bonito trabalho, nacional, cheio de potencial, que merece a oportunidade de vender, continuar, e evoluir.

Comentários

  1. Maria Helena Souza
    em 11/11/2015 11:34

    Parabéns pela coerência da avaliação.

    • Wagner RMS
      em 12/11/2015 12:53

      Obrigado, a ideia é investir, para criticar de forma a ajudar a melhorar e crescer. Nós, muitas vezes inadvertidamente, levados pelo frisson das máquinas de marketing multinacionais, compramos obras estrangeiras com falhas muuuuito mais graves (a maioria dos filmes do cinema recente são exemplos disso), pagamos por ela, mantemos a produção deles alimentada e funcionando, mas nossos produtos, mesmo com falhas menos gritantes, são imediatamente boicotados. É a forma mais eficiente de controle de uma sociedade: transformar os próprios componentes desta sociedade em seus fiscais, que impedem (por meio de coerção, criticando, inibindo, ridicularizando, ou mesmo não investindo) que seus próprios congêneres construam cultura própria (a não ser a que interessa ao dominador). Quando possível, temos que investir no que é NOSSO, mesmo que seja para adquirir, criticar de forma construtiva, e participar, ativamente, da construção de nossas expressões culturais (além daquelas que nos são permitidas, que são importantes, mas que, sendo as únicas marteladas diariamente em nossas mídias, já nos saturaram).
      [ http://wagnerrms.com/c7i ]

  2. Minha opinião ficou muito próxima, Wagner. Concordo com todos os aspectos. Porém, reforço a ideia de apoiar autores nacionais bons… Esse foi o caso. Foi bom.

    Existindo vários trabalhos bons muito rapidamente teremos trabalhos ótimos! :)

Deixe seu comentário