A invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011)

Poster de lançamento

Está chegando o dia da festa do Oscar e as especulações aumentam com relação a possibilidade de premiação deste filme. A invenção de Hugo Cabret foi o filme mais indicado este ano, começando por melhor filme e melhor diretor, além da indicação para os Oscars de fotografia, direção de arte, figurino, montagem, trilha musical, mixagem, edição de som, efeitos visuais e roteiro adaptado. Um total de 11 indicações.

Eu particularmente acho que este filme ganhará a maioria dos prêmios técnicos, mas não levará a estatueta de melhor filme. Torço pelo Oscar de melhor diretor porque sou admirador de Martin Scorsese e porque vi o quanto ele inovou. Pode parecer estranho falar de inovação vindo de um homem que dirigiu 52 filmes desde 1959. Mas foi o que ele fez quando decidiu fazer o filme pensando em 3D onde a fotografia e a direção de arte procuraram justamente usar todos os recursos de profundidade desta nova técnica. Com base nisso, aproveito para recomendar que assistam ao filme em 3D e se possível IMAX. A diferença entre este primeiro filme 3D de Scorsese e os outros filmes do mercado está na pesquisa de possibilidades que ele teve o cuidado de fazer. O resultado é um belo espetáculo visual que mais parece um livro ilustrado de fantasia.

E esta é exatamente a fragilidade comercial do filme. Tudo parece uma grande fantasia para crianças que viveram em outra época e que se apaixonavam por cinema. Tenho minhas dúvidas se hoje, no meio da geração MSN, ainda encontraremos crianças ávidas a entender a poesia por trás da história. Se no universo infantil fica esta dúvida, imagina o resultado no mundo dos adultos que certamente ao perceberem isso, vão evitar assistir.

O filme é passado em Paris dos anos 30, tendo como principal cenário a estação de trem de Montparnasse. Apesar do filme ter a referência a Hugo no título, o maior personagem é o mágico e cineasta Georges Méliès (1861-1938). A história traz o passado de um velho comerciante falido à tona. Dono de uma loja de fabricação de brinquedos na estação de trem, Méliès se esconde da sua verdadeira história. Hugo, órfão e sozinho, sofrido pela ausência de seu pai relojoeiro que morrera em um incêndio no museu onde trabalhava, se alimenta da esperança em consertar um antigo robô autômato que seu pai havia trazido para casa. Aquela peça inanimada guarda o verdadeiro segredo deste filme.

Georges Méliès no filme

Georges Méliès foi um ilusionista francês de sucesso e um dos precursores do cinema que usava efeitos fotográficos criativos para criar cenas bem diferentes. Ele é considerado por muitos o “pai dos efeitos especiais”. Era proprietário do Teatro Robert-Houdin em Paris, que havia pertencido ao famoso ilusionista francês Jean Eugène Robert Houdin. Méliès foi dado como morto após o fim da primeira guerra quando anos antes chegara a ser considerado o maior cineasta do mundo. Chaplin o chamava de “o alquimista da luz” e seus filmes tinham muito sucesso entre crianças e adultos. Seu acervo chegou a ter mais de 500 filmes, que se perderam durante o seu período final de decadência. Seu filme mais conhecido chama-se Le Voyage dans la Lune (Viagem à lua, 1902).

Acidente em Montparnasse, 1895

Como um bom cinéfilo, Scorsese também se preocupou com detalhes. Este tipo de robô autômato, que é peça fundamental neste filme, realmente existe. Foram criados entre 1768 e 1774, estão expostos no Musée d´Art et D´Histoire em Neuchatel na Suiça e agem e desenham figuras como no filme. A cena do acidente de trem, mostrada como um sonho de Hugo, também existiu. Ocorreu em 1895 quando o maquinista da locomotiva não freou a tempo ao chegar ao interior da estação e bateu contra os bloqueios de linha, arrastando-os cerca de trinta metros, batendo depois contra a parede exterior do edifício e saltando para fora da estação, a uma distância de cerca de dez metros na Praça de Rennes.

A invenção de Hugo Cabret é um filme baseado no livro de mesmo nome de Brian Selznick. Sua obra é rica em declarações de amor ao cinema. Também não poderia ser diferente, pois Brian é sobrinho neto do celebre David O. Selznick, produtor de “E o Vento Levou” e foi um dos mais famosos produtores independentes de Hollywood. Se prestarem atenção nos créditos, Brian aparecerá com o papel de ponta “um estudante ansioso”.

Scorsese como fotógrafo de Méliès

O elenco do filme foi uma boa escolha de Scorsese com exceção de Sacha Baron Cohen (Borat) como o policial inspetor da estação de trem. Com uma interpretação caricata, totalmente inapropriada para o estilo do filme, por pouco não o estraga. Por outro lado acertou em selecionar como Hugo o menino Asa Butterfield de O Menino do Pijama de Listras, assim como todo o resto do elenco. Muitos dos atores de peso fizeram papéis pequenos ou quase sem fala, mas com excelentes interpretações (entre eles, Jude Law como o pai do menino, o grande Christopher Lee como o dono da livraria, Emily Mortimer como Lisette e Ben Kingsley como o misterioso dono da loja de brinquedos). Até o próprio Scorsese faz uma pontinha como o fotógrafo que tira a foto de Meliés diante de seu novo estúdio.

Em geral o filme é muito bem cuidado, passado numa atmosfera de conto de fadas, muito rico em fotografia e todos os quesitos técnicos que fazem do filme uma obra de arte. Este é um bom filme, mas mesmo que ganhe todas as indicações não ficará para a história. Eu fui ver este filme com a minha filha de 5 anos e ela gostou mas não marcou. Eu também gostei, mas só recomendo para aqueles que estão dispostos a apreciar mais as características técnicas do que a história em si.

Comentários

  1. Concordo com a opinião do Flavio. Por sinal, suas pesquisas são sempre surpreendentes, parabéns, o lance do acidente do trem me pegou, não fazia idéia.
    De fato é um filme que não esta interessado em cativar a massa, mas um menino de uma outra época que sou eu, rs Fico grato que o filme tenha passado pelo crivo comercial (quase que exclusivamente pelo peso do diretor) e tenha chegado aos meus olhos, pois foi um deleite poético, eu gostei bastante! Foi uma fantasiosa mas encantadora. Chance de viver naqueles tempos intróitos em que a magia dos sonhos mal havia deixado as noites e os sonos, os livros e as pinturas, e começava a nos elevar acima das mazelas deste mundo pelos efeitos especiais da sétima arte!

  2. Também torcia Scorsese como melhor diretor, mas fiquei feliz com a vitória de O Artista.

    Quanto a Hugo, o filme me emocionou e muito. Uma atmosfera de conto de fadas mesmo, uma ode ao cinema e a capacidade de sonhar.

  3. Gostaria de saber 10 diferenças e 10 semelhanças entre o filme e o livro hugo cabret!
    Att.,
    Juliany

  4. Gostei da forma como ele homenageou o cinema e também o visionário Georges Méliès.

    É a magia do cinema em forme de filme, e Scorcese conseguiu realizar uma obra que é para mim, sem dúvidas, uma das melhores coisas que apareceram por aqui neste ano.

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