A Dama de Ferro (The Iron Lady, 2011)

“Se meus críticos me vissem andando sobre as águas do rio Tâmisa, diriam que é porque eu não sei nadar.” A tirada espirituosa de Margaret Thatcher nos dá uma dimensão das dificuldades que a poderosa primeira-ministra enfrentou ao governar o Reino Unido com mão de ferro. O filme mostra Margaret Thatcher como uma mulher determinada, teimosa, de convicções conservadoras e inabaláveis, que num mundo dominado por homens intolerantes fez o possível para sobreviver e impor suas ideias.

Quem conhece um pouco de história ou acompanhou este período pelos telejornais da época lembra muito bem desta personagem de posições firmes e polêmicas. Não é a toa que Margaret Thatcher era chamada de “Dama de Ferro”. Confesso que vi neste filme uma preocupação muito grande em amenizar os aspectos ruins de seu comportamento. A intensão do roteirista não foi de levar o público a um julgamento negativo de sua personalidade. De certa forma, a aparição de Margaret Thatcher logo no início do filme como uma senhora bastante envelhecida e com alucinações que a faziam conversar com seu marido já falecido, fez com que o público tivesse piedade do ser humano, independente de se tratar de um político extremamente questionável.

Com flashes do passado, a história é contada desde o momento em que ela consegue ser aprovada na Universidade de Oxford até o fim de seu “reinado” (1979-1990) de primeira-ministra. Os fatos históricos são mostrados superficialmente, apenas usados como pano de fundo para contextualizar o momento da narrativa. Particularmente eu senti falta de uma abordagem mais intensa das razões que levaram Margaret a ser eleita para a Câmara dos Comuns nos anos 50 e subsequentemente como primeira-ministra em 1979. Não imagino o que pode ter havido nos bastidores da política para que uma mulher alcançasse pela primeira vez na história uma posição tão estratégica no cenário mundial. Acho que teria muito a ser contato.

Placa com a proibição em Ushuaia

Falando de fatos históricos, a Guerra das Malvinas ou Falklands, como querem chamar os ingleses, teve um bom destaque no filme. Certamente por ter sido o fator primordial na reeleição de Margaret em 1982. Desde então, este assunto entre argentinos e ingleses tem ficado adormecido no que chamamos de guerra fria. Coincidência ou não, logo após o filme estrear, a Argentina começou a reagir publicamente contra a militarização do Atlântico Sul, alegando que nas Malvinas existe 1 soldado inglês a cada 3 habitantes e que operações de treinamento bélico com envio de um moderno destroyer  na região é uma ameaça a paz. Em represaria a este fato, o governo argentino ainda proibiu que dois navios ingleses de cruzeiros turísticos ancorassem no porto de Ushuaia como faziam há dois anos. Não satisfeito, o governo argentino começou um movimento “extra-oficial” onde pede as maiores empresas argentinas, importadoras de produtos ingleses, que mudem seus fornecedores privilegiando países que respeitam a integridade territorial e os recursos naturais que pertencem à Argentina.

Se o filme não se aprofunda nos assuntos históricos, o que resta para ser mostrado são os aspectos mais pessoais da personagem. Sua relação com a família, principalmente com seus filhos, é mostrada de forma patriótica, a ponto de aceitarmos tranquilamente a sua ausência como mãe, mesmo sabendo dos reflexos causados nas crianças.

Fiquei um pouco impressionado por ter visto logo no início do filme uma Margaret Thatcher fragilizada pela velhice e pelos sinais de demência que começavam a aparecer. Eu vivi o seu período áureo, onde a imagem forte e decidida daquela Dama de Ferro era marcante para todos nós. Então fui pesquisar para ver se aquela situação era um artifício do romancista ou realmente era fato real. Mas infelizmente é verdade. Desde os 75 anos, Margaret Thatcher vem sofrendo deste mal e não fala mais em público. Em 2008, sua filha Carol deixava mais exposta a real situação de sua mãe com a publicação de suas memórias onde descrevia exemplos de sua demência. Uma pena.

O melhor do filme, que é inquestionável, é exatamente o que foi chancelado pela Academia de Cinema na noite de 27 de fevereiro. No Oscar 2012, o filme A Dama de Ferro foi ganhador dos prêmios de melhor maquiagem e melhor atriz. A atuação de Meryl Streep é sensacional. Muitas vezes esqueci que estava vendo uma caracterização da Margaret Thatcher, pois simplesmente o resultado era perfeito. Tanto a interpretação quanto a maquiagem faz com que acreditássemos estar vendo a própria. Uma excelente parceria entre Meryl Streep e o maquiador J. Roy Helland que já vem sendo feita há muito tempo.

Eu recomendo o filme para aqueles que gostam de Meryl Streep. Não é um filme animado nem tão especial assim. O que o torna bem interessante é a qualidade da atriz, realmente merecedora do seu Oscar, que por sinal já é o terceiro em suas prateleiras. Vale a pena assistir.

Ficha Técnica:

Período de Filmagem: 7 fevereiro de 2011 até 20 de março de 2011
Período de Produção: 3 de janeiro de 2011 até 14 de agosto de 2011
Orçamento: USD 13 Milhões
Pais de Origem: Reino Unido
Produtor: Damian Jones
Diretor: Phyllida Lloyd
Tempo de projeção: 104 minutos
Classificação etária brasileira: Não recomendado para menores de 12 anos por mostrar cenas que envolvem os seguintes assuntos: drogas lícitas e violência.
 
Classificação Infinidade: Cérebro se divertindo no cinema
 

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