13º ANDAR – Penso, logo existo… ou não!

O 13º andar é um daqueles filmes bem construídos, sem muita badalação, sem atores populares, mas que surpreende pela qualidade da direção e pelo roteiro. Este pode fazer parte do Hall dos filmes que fazem com que o espectador exercite o raciocínio durante toda a narrativa. Ele foi baseado no romance “SIMULACRON-3″ de Daniel F. Galouye (1963). Nele há uma história clássica, muito a frente de seu tempo, de realidade virtual e questionamentos filosóficos sobre a natureza da realidade.

Penso, logo existo.” É com esta frase de René Descartes que 13º andar começa.

A trama se desenrola a partir do assassinato de Hannon J. Fuller (Armin Mueller-Stahl), o presidente de uma empresa de computação que desenvolvera um projeto de realidade virtual inovador, com objetivo de manter um mundo simulado totalmente autonômo. Para investigar este assassinato, surge o detetive McBain (Dennis Haysbert) (por um instante faz você lembrar de Denzel Washinton) encarregado dos interrogatórios do assistente Douglas Hall (Craig Bierko) e da jovem e bonita filha de Hannon, Jane Fuller (Gretchen Mol), que aparentemente surge do nada como única herdeira da companhia.

Com o desenrolar do filme, Douglas Hall passa a se questionar sobre a sua própria inocência. Ele parece sofrer de amnésia e este drama faz com que ele procure a verdade por conta própria, entrando em um mundo já explorado por Fuller, mas ainda totalmente desconhecido para ele. A companhia tinha projetado um mundo virtual, contextualizado em Los Angeles dos anos 30, onde os personagens podiam ser “incorporados” pela consciência de um usuário. Neste mundo simulado a “realidade” era um segredo que deveria ser muito bem guardado.

Através de incursões, Douglas Hall se arrisca neste mundo simulado para tentar descobrir a verdade, sem saber que seu próprio mundo não era o que parecia ser. Ele estava em um mundo simulado, surgido de dentro de outro mundo simulado.

O filme vem amarrando cada detalhe de forma inteligente, relacionando comportamentos e situações nos dois níveis de mundos simulados. Explica-se a questão do comportamento do usuário em caso de morte do personagem durante uma incursão, os “déjà vu”, a amnésia de Douglas Hall, o assassinato de Hannon J. Fuller, a identidade da filha herdeira, etc.

A trama é tão bem trabalhada que deixa uma sensação de que até mesmo o mundo real, apresentado no final do filme, poderia ser uma simulação. Porque não?

Apesar de não ser citada no filme, a explicação do porque foram criados os mundos virtuais é deveras interessante.

No romance “SIMULACRON-3″, a sociedade da década de 2030 não quer correr riscos de nenhum tipo. Por isso empresas, instituições e governos baseiam suas politicas em pesquisas de opinião publica – simplesmente não se atrevem a decidir qualquer coisa sem saber como as pessoas poderão reagir.

Esse fato dá um grande poder aos Institutos de Pesquisa e as Associações de Monitores de Reação, para o desespero da população que não aguenta mais esses perguntadores implacáveis em cada esquina.

Diante disto, os especialistas em computação Hannon J. Fuller e Doug Hall criam Simulacron-3, um simulador que gera uma versão virtual perfeita da comunidade em que vivem, completa até o ultimo detalhe, incluindo os elementos individuais de sua população – pessoas virtuais (unidades reativas, no jargão do livro) que pensam e reagem como pessoas do mundo real, sem saber que vivem em um mundo virtual – que são apenas dados em um computador. Esse sistema promete revolucionar o estudo das relações humanas e mudar a cara da sociedade, ao mesmo tempo que pode predizer a reação da população melhor que as lentas pesquisas de opinião publica.

Percebam que a “realidade” apresentada no final do filme está posicionada em 2024 e a explicação do motivo que levou a construção do SIMULACRON-3 só tem sentido se existir um mundo simulado para ser pesquisado neste mesmo período.

Então, mesmo após o final do filme, ainda podemos discuti-lo. O que foi mostrado como realidade, será mesmo realidade ou simulação? Pois é, este é o tipo de ingrediente que admiro em um filme. Uma pitada de discussão.

* * ** * *

Comentários

  1. Fabio Farzat
    em 11/12/2011 02:46

    Esse filme está entre os 10 melhores de sci-fi sem dúvida. Quando assisti fiquei doido para conversar um pouco com alguém e discutir sobre o limite das simulações, a forma como simulacro e personagem trocavam de universo … enfim: excelente início no infinidade! ;)

  2. Este é um dos que preciso rever, foi um grande “choque” na época que assisti

    • André Farzat
      em 12/12/2011 04:11

      Com certeza. Esse é um daqueles filmes que se bate o cartão todo ano para repensar na história. Muito bom !

      • Fabio Farzat
        em 12/12/2011 11:50

        Se bem que, vale a discussão heim? Teria mais um nível pós futuro? Ou aquilo era mesmo a realidade???

        • Na minha opinião é mais um nível sim. Imagina a complexidade que seria uma transferência definitiva de consciência entre um personagem do mundo virtual e uma pessoa no mundo real. Agora, uma transferência de consciência entre personagens de níveis diferentes chega a ser trivial. Puramente programação.

          • Fabio Farzat
            em 17/12/2011 11:14

            Concordo. Matou bem!!! Só que aquilo era tão perfeito que fica no ar … poderia então a própria realidade (nossa) ser uma simulação? (Bem Matrix mesmo! Rs)

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